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Má conservação e instalação incorreta de pisos táteis prejudica mobilidade de deficientes visuais

Placas fora dos parâmetros podem confundir e até gerar acidentes

30 setembro 2020 - 10h30Por Jennifer Vargas

Quem anda pelas ruas de São Paulo já deve ter encontrado alguma calçada quebrada ou até mesmo enfrentado dificuldades para caminhar pelo chão, por vezes, desnivelado. Mas você já imaginou como é fazer isso sem enxergar?

É para isso que existem os chamados pisos táteis, pequenos relevos coloridos no chão, distribuídos entre os pisos de alerta (formatos circulares) e pisos direcionais (retangulares), que fazem toda a diferença para orientar os deficientes visuais. É por meio deles que se é indicado informações importantes, como términos de escada, mudanças de direcionamento ou até mesmo antecipação de obstáculos.

“É muito desafiador andar em uma calçada que, ou ela é esburacada ou cheia de degraus. Tem casos em que você precisa realmente andar na rua, então você se sente mais inseguro”, relata Leonardo Ferreira, 33 anos, cego desde o nascimento.

Técnico em Tecnologia Assistiva na Laramara, associação que atua no desenvolvimento dos deficientes visuais, o rapaz confidencia só se sentir mais tranquilo em algumas partes da cidade, como a Avenida Paulista, onde os pisos são mais conservados e corretamente instalados, e ressalta o risco de acidentes.

“Você primeiro apanha, leva uma cacetada, depois decora que aquilo está ali e não bate mais. É meio que no erro e no acerto. O problema é que nisso, de ter que se acidentar para aprender onde estão os obstáculos, você pode se machucar feio”, lamenta ele, que já está acostumado a se locomover pela cidade tanto para trabalhar, quanto para outras tarefas pessoais. 

Leonardo Ferreira, deficiente visualLeonardo em um semáforo sonoro, que auxilia muito o trânsito dos deficientes visuais | Foto: Mozart Gomes/CMSP

Silverley Silveira, Professor de Educação Física e Especialista em Orientação e Mobilidade na mesma ONG, explica ainda que há comissões consultivas como a Comissão Permanente de Acessibilidade (CPA), da Prefeitura, que visa ouvir os deficientes para propor ações e planos de reestruturação, contemplando acessibilidade de uma maneira geral.

“Se pensa muito em um desenho universal. Para a pessoa que está com cadeira de rodas, para uma mãe com um carrinho de bebê, para um senhor ou uma senhora que não vá tropeçar em nenhum tipo de degrau. Uma coisa que seja acessível a todos.”

Tentamos contato com setores de urbanismo da Prefeitura de São Paulo para entender o problema, mas não recebemos retorno até o fechamento desta reportagem.

Independência

Acostumado a treinar seus alunos para sair às ruas, Silverley ressalta ainda que a conscientização das pessoas também é importante para realmente auxiliar o deficiente visual, em vez de atrapalha-lo.

“Quando a gente fala de autonomia para este deslocamento, é esse ir e vir com segurança, adequação e eficiência. Porque a tendência é a sociedade observar, ver que é uma pessoa cega e falar ‘ai, tadinho’, ‘ai, não consegue, deixa eu ir lá ajudar’. Não vai compreender e quer interferir, sendo que ele mesmo tem essa possibilidade de fazer isso com mais autonomia”, ressaltou.

Leonardo concorda: “Eu brinco que [as pessoas] esquecem que antes de nos encontrar ali na rua, a gente já saiu de casa, pegou trem, metrô, tumulto nas escadas rolantes. Esquecem que você já tem uma vida pregressa, que não apareceu ali do nada”.

E encerra com uma história divertida vivida por ele recentemente, quando teve que sair do isolamento para um compromisso. “Teve uma pessoa que chegou a me abraçar, e eu pensei ‘gente, eu não sei o que eu faço’. ‘Eu dou um tapa na pessoa?’. ‘Eu reclamo?’. ‘O que eu faço?’. Porque a pessoa, poxa vida, não estava querendo fazer aquilo por mal”, disse, aos risos.